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Como escutar o próximo com misericórdia?

“Escutar é muito mais do que ouvir. Ouvir diz respeito ao âmbito da informação; escutar, ao invés, refere-se ao âmbito da comunicação e requer a proximidade. A escuta permite-nos assumir a atitude justa, saindo da tranquila condição de espectadores, usuários, consumidores. Escutar significa também ser capaz de compartilhar questões e dúvidas, caminhar lado a lado, libertar-se de qualquer presunção de onipotência e colocar, humildemente, as próprias capacidades e dons ao serviço do bem comum. Escutar nunca é fácil. Às vezes é mais cômodo fingir-se de surdo. Escutar significa prestar atenção, ter desejo de compreender, dar valor, respeitar, guardar a palavra alheia. Na escuta, consuma-se uma espécie de martírio, um sacrifício de nós mesmos em que se renova o gesto sacro realizado por Moisés diante da sarça-ardente: descalçar as sandálias na «terra santa» do encontro com o outro que me fala (cf. Ex 3, 5). Saber escutar é uma graça imensa, é um dom que é preciso implorar e depois exercitar-se a praticá-lo” (Mensagem do Papa Francisco para o 50º Dia Mundial das Comunicações Sociais).

Ouvir exige atenção, escutar necessita do coração. Muitos ouvem, contudo não escutam. Escutar é deixar que o outro faça do diálogo uma oportunidade de encontro. Quando apenas ouvimos, a paciência é limitada. O desejo incontido de dar uma opinião, por mais simples e singela que seja, parece incontrolável. Em toda alma há um dispositivo que diz: “Minha opinião é importante!”. Será mesmo?

Ouvir não basta, é preciso acrescentar a fala alheia às teses de nossa experiência como medicação, que irá cicatrizar as feridas de uma história que conhecemos a apenas cinco minutos. A pressa em solucionar as dores é o veneno que extermina o restante de vida a palpitar em uma alma machucada.

 

Escutar é um aprendizado

A cada frase elaborada e pronunciada, deveríamos fazer um silêncio respeitoso e acolhedor diante do mistério que habita em cada palavra. Escutar requer tempo e delicadeza, características sutis de um bom ouvinte. Somente o que foi assimilado pelo coração pode ser compreendido pela alma.

O silêncio faz parte da liturgia de muitas igrejas. Para escutar Deus, alguns mestres espirituais aconselham silenciar o coração. A alma silenciosa pode mergulhar no mistério que ultrapassa as palavras. Os apaixonados sabem o valor secreto de um olhar profundo. Palavras não são necessárias quando o encontro supera as fronteiras do ouvir e mergulha na escuta apaixonada.

O terapeuta mais qualificado não é aquele que, na academia, desenvolveu as melhores teses e tem as palavras mais acalentadoras para a fragilidade da alma, mas sim aquele que, no silêncio do ouvir, deixou rastros do seu amor na escuta amorosa.

Em cada história, muitas vidas e personagens gritam e pedem espaço para serem ouvidos e compreendidos. Talvez, a vocação do terapeuta seja esta: escutar cada história e compreender, no silêncio amoroso, que em cada personagem se encontra um retalho da grande colcha que compõe a história do partilhante. Somos tantos em apenas um. O ouvir é uma ponte para que a escuta nos ajude a superar o medo de desbravar outros mundos que estão sendo gestados naquele exato momento em que estão sendo expressos.

Fonte: Canção Nova