O Pastor

Homilia da Santa Missa na Noite de Natal

Amados irmãos e irmãs,

Nesta noite Santa, antes de meditarmos sobre os textos que a Santa Igreja nos apresenta, gostaria de começar entregando meus cordeais votos a todos vós – seminaristas, coordenadores de pastorais, colaboradores, famílias, todas as pessoas que estão hoje presentes para celebrar o Natal do Senhor. Votos de um Santo Natal e um feliz ano novo!

No Natal do Senhor, todos os sacerdotes podem celebrar três missas no dia de Natal. Hoje é motivo de alegria e, por isso, celebraremos três missas por uma única ocasião: a solenidade da encarnação do Verbo de Deus! Porém, cada missa terá textos diferentes. Estas três liturgias significam os três nascimentos do Verbo: o Filho de Deus foi gerado antes de toda a eternidade no seio do Pai, no mistério da eternidade, antes que o mundo existisse; o segundo nascimento é no momento em que Jesus nasce da Virgem Maria; o terceiro nascimento é a palavra de Deus que nasce em nossas almas.

Na missa da Noite – ou missa do Galo – a liturgia proclama o Evangelho de São Lucas; os anjos cantam o hino de louvor "glória a Deus nas alturas!" (Lc 2, 14). Nesta missa, a Igreja se reveste da grandeza espiritual! "O povo que andava nas trevas viu a grande luz" (Is 9, 1). A Virgem Maria nos traz a luz eterna, faz brilhar em nossas vidas a Vida.

Por que falamos da luz? Sem luz não há como enxergar o que está a nossa frente. Sem luz não há como andar sem se machucar esbarrando nas coisas ao nosso redor. Sem luz vivemos nas trevas do relativismo! Sem luz não somos nada! A luz que falamos hoje nos faz experimentar a verdade... a única Verdade: o Verbo de Deus! Para nós, essa luz é a graça de Deus que toca toda humanidade! Por isso cantar o hino dos anjos: Glória a Deus nas Alturas!

Vamos a Belém para adorar o Senhor! Ao olharmos para o Cristo na manjedoura, notamos a fragilidade, a pequenez, a simplicidade, a humildade. Deus que quebra toda a contradição da humanidade faz esta mesma humanidade enxergar Deus na pequenez e simplicidade de uma criança. Não qualquer criança! Mas, uma criança envolta em faixas, numa manjedoura, ao redor da sagrada família que apresentou ao mundo (que esperava o salvador bélico, salvador político ou salvador rico). Mas, Deus confunde os homens para fazer com que eles enxerguem a glória de Deus aos olhos da fé: na pequenez do menino Jesus está o mistério da nossa salvação!

“Assim, o Natal é a festa da amante humildade de Deus, de Deus que inverte a ordem da lógica esperada, a ordem do devido, do dialético e do matemático. Nesta inversão, está toda a riqueza da lógica divina que transtorna a limitação da nossa lógica humana (cf. Is 55, 8-9)” (Discurso do Santo Padre Francisco, Encontro com a Cúria Romana na apresentação dos votos natalícios, 22 de dezembro de 2016).

O Papa Francisco nos lembrava o que disse o Papa Paulo VI: “Deus poderia ter vindo revestido de glória, esplendor, luz, poder, assustando-nos, deixando os nossos olhos arregalados pela maravilha. Mas, não! Veio como o menor dos seres, o mais frágil, o mais fraco. E porquê? Para que ninguém tivesse vergonha de se aproximar d’Ele, para que ninguém tivesse medo, precisamente para que todos pudessem senti-Lo vizinho, aproximar-se d’Ele, já sem qualquer distância entre nós e Ele. Houve um esforço, por parte de Deus, de mergulhar, afundar-Se dentro de nós, para que cada um – digo cada um de vós – possa familiarizar com Ele, possa ter confidência, possa aproximar-se d’Ele, possa sentir-se pensado por Ele, por Ele amado... por Ele amado. Reparai que esta é uma grande afirmação! Se compreenderdes isto, se lembrar desisto que vos estou a dizer, tereis compreendido todo o cristianismo” (Homilia do Papa Paulo VI, Santa Missa na Noite de Natal para os representantes das nações, 25 de dezembro de 1971).

“Na realidade, Deus escolheu nascer pequenino, porque quis ser amado. E assim a lógica do Natal é a subversão da lógica do mundo, da lógica do poder, da lógica do controle, da lógica farisaica” (Discurso do Santo Padre Francisco, Encontro com a Cúria Romana na apresentação dos votos natalícios, 22 de dezembro de 2016).

“Gostaria de meditar de modo mais específico sobre o momento em que, por assim dizer, a esperança entrou no mundo, com a encarnação do Filho de Deus. O próprio Isaías tinha prenunciado o nascimento do Messias nalguns trechos: ‘Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, ao qual será dado o nome de Emanuel’ (7, 14); e também: ‘Um renovo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará das suas raízes’ (11, 1). Nestas passagens transparece o sentido do Natal: Deus cumpre a promessa, fazendo-se homem; não abandona o seu povo, aproxima-se a ponto de se despojar da sua divindade” (Papa Francisco, Audiência geral, 21 de dezembro de 2016).

“Quando falamos de esperança, referimo-nos muitas vezes àquilo que não está no poder do homem e que não é visível. Com efeito, o que esperamos vai além das nossas forças e do nosso olhar. Mas, o Natal de Cristo, inaugurando a redenção, fala-nos de uma esperança diferente, de uma esperança confiável, visível e compreensível, porque fundada em Deus. Ele entra no mundo e dá-nos a força de caminhar com Ele: Deus caminha ao nosso lado em Jesus, e caminhar com Ele rumo à plenitude da vida dá-nos a força de viver o presente de maneira nova, embora difícil. Então, para o cristão esperar significa a certeza de estar a caminho com Cristo rumo ao Pai que nos aguarda. A esperança nunca está parada, a esperança está sempre a caminho e leva-nos a caminhar. Esta esperança, que o Menino de Belém nos confere, oferece uma meta, um destino bom para o presente, a salvação à humanidade, a bem-aventurança a quantos confiam em Deus misericordioso. São Paulo resume tudo isto com a expressão: ‘Fomos salvos pela esperança’ (Rm 8, 24). Ou seja, caminhando neste mundo, com esperança, fomos salvos. E aqui cada um de nós pode formular a pergunta: caminho com esperança ou a minha vida interior está parada, fechada?” (Papa Francisco, Audiência geral, 21 de dezembro de 2016).

“Antes de tudo, observamos o lugar em que Jesus nasce: Belém. Pequeno povoado da Judéia, onde mil anos antes tinha nascido David, o pequeno pastor escolhido por Deus como rei de Israel. Belém não é uma capital, e por isso é preferida pela providência divina, que gosta de agir através dos pequeninos e dos humildes. Naquele lugar nasce o “filho de David” tão esperado, Jesus, em quem se encontram a esperança de Deus e a esperança do homem” (Papa Francisco, Audiência geral, 21 de dezembro de 2016).

“Depois olhamos para Maria, Mãe da esperança. Com o seu ‘sim’ abriu a Deus a porta do nosso mundo: o seu coração de jovem estava cheio de esperança, totalmente animada pela fé; e assim Deus escolheu-a e ela acreditou na sua palavra. Aquela que por nove meses foi a arca da nova e eterna Aliança, na gruta contempla o Menino e nele vê o amor de Deus, que vem para salvar o seu povo e a humanidade inteira. Ao lado de Maria está José, descendente de Jessé e de David; também ele acreditou nas palavras do anjo e, olhando para Jesus na manjedoura, medita que aquele Menino vem do Espírito Santo, e que o próprio Deus lhe ordenou que o chamassem assim, ‘Jesus’. Naquele nome está a esperança para cada homem, porque mediante aquele filho de mulher, Deus salvará a humanidade da morte e do pecado” (Papa Francisco, Audiência geral, 21 de dezembro de 2016).

Por fim, notemos a manjedoura: embora pequena, frágil, simples e humilde, Deus quis ser adorado nela. Não nos palácios, não no país rico, no seio da família rica. Mas, na simplicidade, que é Dom de Deus!

 

Padre Bruno Vianna Citelli